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Os Pés Rachados

A alguns dias, tive o grande privilégio de estar junto com um casal de missionários que dedicou grande parte da vida ao serviço de evangelização entre os povos indígenas do nosso país. Naquele momento eu e outros pastores fomos convidados a orar pelo casal. Enquanto alguém o fazia, postei-me de pé atrás daqueles dois irmãos e comecei a perceber o efeito do tempo e do labor em uma obra tão longa e tão dura quanto aquela a que haviam dedicado suas vidas.
Ajoelhados em minha frente percebi nos grisalhos cabelos que a mim traduziam a mais nítida realidade, a de que o tempo havia passado, mostravam que as forças já não mais eram como as de outrora. No entanto o simples ato de se ajoelharem e receberem uma oração, com a dificuldade típica de quem já não é mais um jovem e uma jovem com a robusteza de antes, eles responderam de forma silenciosa que apesar do físico fragilizado e cansado, o amor e a coragem ainda se impunham, impávidas dentro de cada um deles. Observei as mãos grossas, de quem está acostumado ao trabalho árduo, a pele queimada pelo sol na labuta diária, nas roupas que não dispunham de nenhum luxo, e, ao mesmo tempo revelavam a abnegação e a simplicidade de uma vida dedicada ao próximo.
Mas nada me chamou mais a atenção do que os pés daquela senhora posta de joelhos diante de mim. Talvez ninguém mais observou, talvez ninguém mais ali ouviu a pregação silenciosa daquele par de pés rachados, machucados, feridos. Eram pés que nenhuma mulher de fato gostaria de ter. Grossos e rachados. Entretanto aquela senhora parecia não se importar com aquilo. E pensei comigo mesmo: “Quão formosos são os pés dos que anunciam as boas novas.”
Naquele momento me dobrei à mensagem silenciosa dos pés rachados. Eles me falavam da luta, da batalha dos anos, das dificuldades, dos tempos difíceis e dos muitos momentos de solidão. Falavam sobre as lágrimas derramadas, das dores sofridas e sofríveis de uma decisão tão absurda que é a de abandonar o seu mundo e as oportunidades que se apresentam de conforto, comodidade e segurança, para se lançar em um mundo desconhecido em uma cultura e ambiente primitivo.
Os pés rachados traduziam também a força, o amor e a fé, mostravam de forma exata o que significa superação, dedicação e responsabilidade. Parece até que tinham legendas a mostrarem o que verdadeiramente significa lutar pelo que se crê. Eles clamavam em um silêncio quase ensurdecedor aos ouvidos do meu egoísmo, que amor verdadeiro às vezes nos faz sangrar, que a fé rompe barreiras e que juntos, Fé e amor tornam seres humanos grandes em nobreza e ricos de grandeza. Não é aquilo que possuímos que nos acrescenta valor, nem mesmo os títulos que colecionamos que dizem quem somos, mas aquilo ou aquele que a fé nos faz alcançar num segundo, muda nossa história permeando-a de grandeza e nobreza.
Neste ponto o constrangimento tomou conta do meu coração e da minha mente. Confesso que não prestei atenção numa só palavra da oração feita, porque estava ocupado demais sendo ensinado por um par de pés rachados. Ao final daqueles rápidos minutos a senhora se levantou e pude então entender com uma profundidade nunca antes experimentada o que realmente é a essência da palavra: “Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas.” Romanos 10:15

Evangelho de Gaveta

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E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração;

Deuteronômio 6:6

Hoje cedo, sentado à mesa, no gabinete da igreja, abri a terceira gaveta do lado esquerdo para pegar alguma coisa e percebi a quantidade de bugigangas que havia ali dentro.   Um marca páginas, vários cartões de visitas dos mais variados tipos e serviços, um mini caderno com algumas anotações sobre os idos de 2009,  algumas chaves que não tenho a menor ideia de onde são, parafusos, uma régua, algumas coisas bem exóticas como um míssil de brinquedo, uma caneta velha prateada que não funciona mais e claro um monte de quinquilharias que não tenho a menor noção do que são ou para que servem.

No entanto, se pode aprender muito com uma gaveta cheia de nada, ou pelo menos nada de útil para aquele exato momento.

Aprendemos que muitas vezes nosso evangelho é como uma gaveta que vai ao longo da vida se abarrotando de varias coisas, vamos juntando todo tipo de quinquilharias ali dentro, bugigangas de todos os tipos, com a esperança de que sejam úteis num futuro. Mas o tempo passa, e, um dia precisamos realmente de algo especifico, que solucione nosso problema, que nos dê um alivio ou que nos sirva de ferramenta para sanar uma questão. Neste momento procuramos a velha gaveta que acabamos por denominar (fé), mas ao abri-la encontramos ali dentro apenas um monte de coisas se nenhuma expressão. Nossa primeira atitude é ir tirando e vasculhando uma a uma a fim de conseguir algo que nos sirva. Por fim nos deparamos com a triste realidade vazia e inútil de cada coisa ali dentro guardada. Estão velhas, ultrapassadas, obsoletas. Eram apenas metodologias de escape e não evangelho de verdade. E ai então somos pegos de surpresa por um cristianismo cheio de superstição, mitos, religiosidade, ritualismo, sincretismo e totalmente pragmático. Tudo isso porque fizemos do cristianismo mais um sistema religioso como os demais que servem ao homem como instrumento revolvedor de problemas, dos mais simplórios até os mais apavorantes. Ele se torna uma gaveta cheias de possíveis instrumentos de soluções para problemas futuros. Assim nosso evangelho é reduzido à  estatura das coisas que conseguimos guardar dentro da gaveta. Aquilo se torna sua alma, sua essência e por fim sua perversão e possível derrocada.

Vida cristã não é uma gaveta fechada com possíveis cartuchos solucionadores de problemas futuros à qual recorremos somente nos dias da perplexidade. Ela deve ser degustada no dia a dia, de forma prática deve participar das nossas causas, dos sonhos, deve conviver com as dores. Deve ser carregada no peito, para que a sintamos, na cabeça para que nos dirija e no braço para que nos fortaleça.  Deve ser o evangelho da rua, do parque, da alegria, do sorriso, do dia mais claro até a noite mais escura. Deve nos rodear, abrir nosso olhos nos fazendo enxergar a vida que acontece através de seu prisma, de sua ótica. Deve nos preencher, nos encher e transbordar. Por fim deve ser tirado da gaveta deixando de ser instrumento religioso e se tornar o tom da vida em cada um de nós, para que através dele cada um de nós desfrutemos a vida de Cristo.

ImagePorque tu, SENHOR, és a minha lâmpada; e o SENHOR ilumina as minhas trevas. 

2 Samuel 22:29

Não são raras as vezes que acabo perguntando, por que Senhor? A verdade mais lancinante em que subjaz  minha pergunta seria, o simples fato de que ao deparar-me comigo mesmo e a obscuridade existente e persistente em minha alma descortina-se em minha frente, erguendo-se impávida a frigida realidade do fracasso pessoal. Penso em desistir, acredito serem os problemas insuperáveis, incrédulo sou tragado pelas circunstancias, sinto-me fraco, desesperançado e impotente. Assim acabo perguntando por que Senhor?

Porque não consigo, não posso, não sou, não possuo? Dentre tantos outros ”porque´s” com os quais inquiro Cristo, diante de minhas frustrações pessoais.

Mas com um toque de suavidade docilmente sinto a mão de Deus conduzindo-me a novas reflexões. E diante das Escrituras dobro-me a verdade mais doce e amorosa que me vem em forma de respostas às perturbações de minha alma. Descubro que a pergunta POR QUE SENHOR? Encima da qual debruço minhas orações e lágrimas está totalmente correta. O que está errado é o tom negativo que apresento diante de cada, POR QUE? Por que não consigo, não posso, não sou, não possuo? Qual seria  então o tom correto a ser utilizado? Reconhecendo minha incapacidade, o tom correto a ser utilizado seria. POR QUE SENHOR? Se tenho algo, por que tenho? Se sou algo, por que o sou? Se consegui, por que consegui? Neste instante o baú de Cristo é aberto e os tesouros de suas promessas saltam aos meus olhos. Tudo isso não são méritos meus, mas méritos de Cristo em minha vida. Minha família, meu trabalho, minha igreja, meus irmãos, são méritos de Cristo em minha vida. A salvação, o Espírito de Deus, os milagres, as graças, a possibilidade de orar e ter a quem recorrer e o consolo da Palavra de Deus, são todos méritos de Cristo. Tudo o que sou e possuo, são na verdade tesouros do próprio Cristo confiados a mim para glorificar seu nome, demonstrando seu grande e eterno amor por um incapaz que ele torna capaz. Ele acaba com as trevas que em mim existem e as trevas que em meu mundo persistem. Isto desfaz as trevas e ilumina o caminho para que a vida prossiga e segura minha alma pode descansar em Cristo Jesus.

Tú Senhor és a luz que dissipa as trevas e a luz que nos dá as possibilidades.

Minha oração é para que possamos enxergar a vida pela ótica e luz dos méritos de Jesus Cristo, e que isso seja suficiente para nos satisfazer e criar em nós o sentimento de que é essa verdade e somente essa que nos faz mais que vencedores..

ATIVISMO

Seis dias farás os teus trabalhos, mas ao sétimo dia descansarás…. Êxodo 23:12

Quanta correria! Tenho certeza de que alguns gostariam que o dia fosse feito de quarenta e oito horas e mesmo assim achariam pouco. No mundo ocidental onde o acumulo de bens significa para a maior parte das pessoas o objetivo maior de suas vidas, a frase “tempo é dinheiro” ganha uma expressão ainda mais forte e determinadora no dia a dia de cada individuo que compõe nossa sociedade de valores capitalistas. Levamos nosso corpo e mente a uma exaustão tão profunda que somos alvos das mais variadas doenças psicossomáticas. O que, na verdade, talvez já esteja se tornando até mesmo um modismo em nossa sociedade. Os altos padrões impostos pelo meio onde vivemos nos obrigam a tirar o melhor do nosso corpo e mente, e na maioria das vezes nos obrigam a ir além. Precisamos ser bons em tudo, ter um conhecimento geral apurado e ainda sim atender aos altos padrões comportamentais, culturais e estéticos nos tornando as pessoas que nossa sociedade espera de nós. No afã de sermos aceitos como parte do integral e ativa no meio onde estamos nos submetemos aos mais rígidos padrões que nos são impostos. O ativismo faz parte dessa tentativa humana de atribuir valor a si mesmo, diante de uma sociedade que nos impõe rigorosamente o status que espera que cada um alcance, para sermos simplesmente aceitos. Nessa corrida desvairada pelo sucesso e aceitação, descobrimos que os padrões estabelecidos por homens, mudam e aumentam a cada “conquista pessoal” tornando-se impossíveis de serem alcançados, gerando então no ser humano um estado constante de medo, frustração, decepção, deslocamento, fadiga, inadequação e consequentemente fracasso. Nesse frenesi nos encontramos em meio a uma tentativa desesperada de agradar e sermos agradados. No entanto, existe um convite “bíblico” para cada um dos seguidores de Cristo, para fugirmos desse ativismo que promove tanto mal a nós mesmos. Descanse! O sábado significa isso, descanse! Você não é uma maquina. Lembre-se de seu Criador, fugindo dessa desvairada correria, compreendendo que seu valor não é atribuído por suas conquistas pessoais, mas sim no entendimento de que Jesus Cristo pagou o mais alto preço que esse universo já viu por sua vida. Por isso o “sábado”, deve ser o momento em que você descobre sua humanidade e limitações, que precisa de amor, carinho, relacionamentos, diversão, família, tempo para reflexão e comunhão com Deus, todavia vai além, o sábado deve ser um estilo de vida de descansar em Deus, sabendo que nosso verdadeiro valor se encontra nele e que sem ele tudo o que fazemos é desprovido de significado, porque sem ele não podemos fazer nada de efetivamente coerente para nosso próprio bem estar. Esse valor não é intrínseco, mas depositado em nós pelo Pai. Ele Resolveu em seu eterno amor, nos conceder um valor inestimável, pelo que somos não pelo que possuímos ou fazemos. Isso ninguém pode tirar de nós!

Minha oração! Ah… Minha oração é para que todos nós aprendamos o verdadeiro valor que nos foi atribuído em Cristo, e para que aprendamos a descansar seguros nele.

QUEBRANTADO

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Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus. Salmos 51:17

 

 

Quebrantado é a definição de um estado de espírito onde o homem sente-se impossibilitado de empreender qualquer conquista por seus próprios esforços, pois a única realidade acerca de si mesmo que conhece é a impossibilidade. É a realidade de alguém que está fraco, dominado, vencido, debilitado, etc…

 

É difícil pensarmos na possibilidade de Deus querer nos ver dessa forma, mas essa é a mais pura verdade que encontramos nas páginas das Escrituras Sagradas. Todos nós precisamos entender e reconhecer nossa impossibilidade para fazermos algo verdadeiramente significativo e bom. O próprio Senhor Jesus disse: “… sem mim nada podeis fazer …”

 

Todos os dias as pessoas saem de casa para empreenderem suas lutas pessoais a fim de se manterem vivas, lutam no trabalho, lutam nos seus relacionamentos, nos seus lares, lutam por seus sonhos, por seus direitos, enfim, a vida é uma luta constante. Entretanto o que não devemos fazer é lutarmos contra Deus. Precisamos viver esse eterno estado de espírito: de que sem ele, só conhecemos a impossibilidade. Precisamos preservar em nós o sentimento de fraqueza, de que fomos dominados, vencidos por Ele, pois é somente quando estivermos ajoelhados aos seus pés reconhecendo sua grandeza é que estaremos de pé e preparados para os combates travados no nosso dia a dia. Talvez assim entendamos as palavras do Apostolo Paulo: “Pois quando sou fraco, ai é que sou forte.” Quebrantamento é um estado de espírito que nos leva a uma dependência total de Deus.

 

Minha oração é está: Senhor Jesus, abençoe-nos com um espírito quebrantado, afim de que possamos experimentar a dependência do Senhor. Livra-nos do espírito altivo, da soberba e do egoísmo, mas dá-nos amor, compaixão e perdão. Amém.

 

TRABALHO

“E Daniel propôs no seu coração não se contaminar com a porção das iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia…” (…) ”Quanto a estes quatro jovens, Deus lhes deu o conhecimento e a inteligência em todas as letras, e sabedoria; mas a Daniel deu entendimento em toda a visão e sonhos.” Daniel 1:8 e 17.

Um dos grandes exemplos de profissional bem sucedido nas Escrituras é o profeta Daniel. Acredito que tudo o que ele se tornou (primeiro ministro do Império), foi devido a uma pequenina decisão que tomou ainda quando fazia parte dos despojos trazidos de Judá, como escravo. Ele decidiu não se contaminar com as iguarias do rei.

Em nossa caminhada cristã muitas facilidades nos são apresentadas como atalho para o dito sucesso profissional. Geralmente esses atalhos nos levam a abandonar nossos valores, princípios e consequentemente nossa vida com Deus. São facilidades apresentadas pela vida para promover nosso próprio crescimento. No entanto o que percebo na vida do profeta é que sua decisão não fora baseada em sua própria promoção, mas sim na glorificação do nome de Deus. Ele resolveu se manter puro, incontaminado e o resultado disso foi obviamente a ação de Deus em sua vida, não afim de promover Daniel a um status de homem vitorioso, mas sob o plano de fazer o nome de Deus conhecido em todo mundo.

As ferramentas dadas a Daniel foram:

Conhecimento – Como Deus nos dá conhecimento? Dando-nos a oportunidade de aprender. Ele não transfere conhecimento por osmose, mas concede a nós seres humanos a oportunidade de extrair o máximo dos momentos de aprendizagem que temos. Apesar de Deus nos dar as oportunidades, depende de nós o fato de querermos aprender.

Inteligência – É a capacidade mental para assimilar todo o conhecimento proposto pela busca e pesquisa pessoal. Colocando em prática da melhor forma possível.

Sabedoria – É a capacidade de utilizar-se do conhecimento adquirido para mudar e melhorar a si mesmo como indivíduo e para mudar e melhorar a sociedade onde está inserido.

Entendimento em todas as visões e sonhos – Capacidade de Ver e enxergar a realidade futura. Isso não se restringe a questões sobrenaturais, mas também a um empreendedorismo, a capacidade de enxergar a sua realidade, agir, inovar e mudar o rumo das coisas.

Este foi Daniel, um homem que não se deixou contaminar pelas facilidades propostas para galgar um sucesso passageiro, mas que permitiu-se ser trabalhado por Deus para tornar-se alguém que mudou a história de um reino.

Minha oração é para que possamos deixar de ser meros trabalhadores e nos tornarmos agentes de Deus onde ele nos colocou para mudarmos a realidade destes lugares.

As ferramentas já estão a nossa disposição basta a utilização correta.

Síndromes

As meditações que seguem o tema sugerido acima são fruto de minhas próprias experiências e de tantas outras que encontrei ao longo de minha caminhada cristã. São reflexões bíblicas sobre como podemos desenvolver nossa experiência cristã a partir de conceitos errados sobre quem Deus é, e como ele se relaciona conosco, formando assim pressupostos deficientes que descaracterizam a pessoa de Jesus Cristo, desenvolvendo com isso uma práxis eclesiológica sintomática e por fim acabamos por humanizar o que é espiritual e superespiritualizar o que é humano. À essa problemática daremos o nome de síndromes. Nossa intenção, contudo, é levá-lo a refletir biblicamente sobre o desenvolvimento de sua experiência cristã, na expectativa que de alguma forma Deus nos use para promoção de sua Glória e para o vosso crescimento em Cristo.

O que é uma Síndrome?

A palavra é uma derivação do grego (συνδρομη) – Sundrome. Um estudo semântico da palavra nos leva a entendê-la como: “Ajuntamento ou Corrida, desordenado e hostil”. [1] Como metáfora pode ser entendida também como o ato de “mergulhar”.

No texto bíblico é usada somente em uma passagem, em Atos 21.30 que nos conta a grande confusão e correria formada pelos Judeus ao prenderem Paulo o Apostolo, sob a acusação de estar mentindo contra o povo de Israel e contra a Lei de Moisés. Além de ser acusado de levar Trófimo para dentro do pátio do templo no qual era proibida a entrada de gentios. Esse “ajuntamento” ou “correria” hostil do povo é uma tradução da palavra Síndrome.

  • A versão Almeida Revista e Atualizada traduz o termo como “correndo”, dando a entender que (o povo veio correndo de todos os lados…), para se ajuntar a confusão.
  • A Almeida Revista e Corrigida Fiel usa a seguinte tradução: “Juntou-se” lançando luz ao ato de uma grande multidão se juntar ao alvoroço que tomava conta da cidade.
  • A tradução Literal do Novo Testamento Interlinear utiliza-se do termo: “Ajuntamento”, dizendo-nos que por causa da agitação da cidade houve um grande ajuntamento do povo.

Na medicina atual Síndrome é utilizada para traduzir um conjunto dos sintomas que caracterizam uma doença.[2]

Talvez pudéssemos entender melhor a palavra síndrome a partir de sua raiz e da junção das duas definições acima citadas. De forma alguma tenho aqui a presunção de redefinir um termo, mas tão somente tentar explica-lo à luz de seu significado original.

Síndrome seria então um ajuntamento dos mais variados sintomas e ou sinais de causa desconhecida ou em estudo ou conhecida, causados por uma patologia, ou seja, uma força hostil ao corpo humano, sendo ela fisiológica ou psicológica de forma a desordenar completamente as funções psíquicas ou somáticas do corpo humano. Um mergulho no caos físico ou psicológico, ou mesmo os dois juntos.

Partindo dessa premissa daremos inicio a uma série de meditações sobre o tema SÍNDROMES

Todos os Nomes utilizados são fictícios!

Síndrome de um Deus Carente

Todas as histórias aqui narradas, assim como os nomes utilizados são fictícios.

Ao Bispo Apolinário,

Como vão as coisas? Sua esposa, seus dois filhos?

Já faz muito tempo que não nos vemos, apesar de que vez por outra acompanho seu programa pela televisão. Achei interessante o tema de sua última mensagem, pois é algo que acredito profundamente e tenho buscado para meu ministério e para minha vida prioritariamente: A busca pela intimidade com Deus. Você usou aquele velho texto de Gênesis 28, onde Jacó tem uma visão de uma escada dourada que tocava terra e céu e os anjos subiam e desciam; e onde de maneira maravilhosa, Deus firma com ele a continuidade das promessas feitas a Abraão e Isaque.  O texto narra também como depois daquela bela experiência ele ergue um altar afirmando que Deus estava ali e que ele havia encontrado a casa de Deus.

Você usou esse texto para afirmar que precisamos ter um encontro com Deus, mas para isso precisamos encontrar o lugar que é a casa de Deus, onde Deus opera seus milagres, onde Deus se revela. Afirmou que assim como Jacó havia encontrado Deus em sua história, precisamos encontrar Deus em nossa história, mas para isso precisamos encontrar o lugar de sua manifestação. Disse também que o seu deus é um deus de relacionamento e que por causa do seu grande amor ele iria derramar suas bênçãos sobre a vida das pessoas que estavam ali, pois elas haviam encontrado a verdadeira casa de Deus. Após isso o que vi foi um show de testemunhos sobre como as pessoas que estão indo em sua igreja estão prosperando, vi também os testemunhos sobre a toalhinha abençoada e sobre como tantas outras bugigangas evangélicas tem sido canal de benção na vida das pessoas a fim de mudar a realidade econômica dos membros de sua comunidade.

Sendo sincero, assisto de vez em quando seu programa para saber qual é a mais nova maluquice evangélica que está na moda. Mas, quando escutei o que estava dizendo nesta última mensagem realmente fiquei muito bravo; até que lembrei-me que o amigo nunca foi lá um bom intérprete bíblico, mas também nunca se preocupou com isso, não é verdade? Todavia, lembro-me muito bem de seus dons para o marketing e para inventar histórias.

Por favor, me responda: Você acredita mesmo no que disse? Acredita que para eu encontrar Deus preciso achar sua casa, ou seja, lugar onde ele se manifesta?  Você acredita mesmo que o templo de sua igreja por mais monumental que seja é realmente a morada do Altíssimo? E mais, você crê piamente que os testemunhos apresentados pelo seu programa são realmente bênçãos advindas de um relacionamento com Deus?

Apolinário, não fique triste por tirar o Bp. de seu nome. Eu realmente não me importo com títulos.

Estou certo que você e Jacó estão no mesmo patamar sobre o entendimento dessa experiência narrada em Gênesis. O texto não nos mostra Jacó encontrando Deus, nos mostra Deus encontrando Jacó. Apolinário, nenhum homem pode ter uma experiência com o Criador se este não se manifestar a ele. Não somos nós que o encontramos, mas nós fomos encontrados por ele. Esse é o grande drama por detrás dos evangelhos, Deus vindo ao mundo para dar ao homem a oportunidade de estar em sua presença. É Deus que nos encontra! Somos todos, um tipo de Jacó, fugitivos desvairados, errantes pelos caminhos da vida, enganadores que inutilmente tentam driblar a morte. Todavia, em dado momento da história fomos achados por Deus em sua infinita Graça. Não confunda, não é que estávamos perdidos dele, mas que a salvação veio em tempo determinado, o qual as Escrituras denominam plenitude dos tempos. Só através do ato redentor de Cristo nossos olhos são abertos para uma realidade surreal, para uma realidade dimensional que liga temporal e eterno, céu e terra, criador e criatura em um relacionamento baseado nas promessas invariáveis de Deus e não nas expectativas humanas. Essa é a realidade do texto. A semelhança de Jacó você entendeu tudo errado. Quando Jacó diz que encontrou Deus, ele não tinha a mínima ideia de que havia sido encontrado e quando fala que aquele lugar era casa de Deus é a simples expressão de sua ignorância com respeito ao ser Divino.

Apolinário, talvez eu frustre a base do seu ministério com minha próxima observação, mas não fique triste, estou apenas querendo que você reflita sobre as coisas que anda falando.

Sua igreja não é a casa de Deus coisa nenhuma! Assim como aquele lugar onde Jacó estava não era a casa de Deus. Não existe um lugar geográfico que possa comportar toda a grandeza de Deus. Até porque, segundo a sua palavra, ele é infinito e nada pode comportar o infinito. Outra coisa é que a bíblia nos diz que ele não habita em templos feitos por mãos de homens. Então pare de induzir as pessoas a pensarem que há algo de extraordinário nesse monte de tijolos e cimento. Se há algo de especial em alguma coisa deve ser nas próprias pessoas, não como valor intrínseco em nós mesmos, porque não temos valor algum, somos todos pecadores, mas pela graça de Deus e por seu grande amor ele nos atribuiu valor, um valor inestimável, que somente ele pôde pagar a fim de nos resgatar do terrível futuro que nos aguardava: o valor do sangue de Jesus Cristo seu Filho.

Partindo disso entendemos que a casa de Deus é na verdade a reunião de todos os crentes em todas as partes do mundo, de todas as etnias, como pedras vivas, segundo os escritos de São Pedro Apóstolo, não porque o podemos conter, mas para o Louvor de Sua Glória. E sabe o que mais, ainda que não o possamos conter de forma imponderável e absurda ele resolveu habitar em nós, como eu disse, não para ser contido por nós, mas para nos conter a todos através do seu Espírito Santo.

Isso me leva a um verdadeiro relacionamento com Deus. Não essa síndrome de um Deus carente que você e outros estão ensinando. Como se Deus estivesse disposto a fazer qualquer coisa para ter uma relação mais pessoal com a criatura humana, incluindo abrir mão de seus atributos. Esse é um deus que está escondido e perdido entre as quatro paredes de algum templo, esperando ser encontrado pelo homem e quando o é, coloca à sua disposição todo seu arsenal de milagres para lhe proporcionar a felicidade esperada e a satisfação dos seus desejos. Um deus que carece de afeto, atenção, carinho, louvor, amor, que se sentiu abandonado pela criatura e sofre de depressão por isso, a ponto de abrir mão do seu verdadeiro EU e compartilhar de sua glória e atributos, com toalhas, alianças, rosas, sal grosso e essas quinquilharias que você vende em sua igreja.

Você realmente acredita que as supostas curas feitas no interior do seu templo ou os testemunhos de prosperidade são na verdade expressões de uma intimidade com o Deus Revelado nas Escrituras?

O que você me diz das curas efetuadas simplesmente por indução mental? Ou melhor, o que você me diz do conhecido médium que incorpora Dr. Fritz e seus colegas espíritas que fazem curas extraordinárias? Se lucrar é expressão de intimidade com Deus, como entender um Bill Gates, um Eike Batista, ou Carlos Slim Helu, homens que compõem o ranking dos mais ricos do mundo? Você acha mesmo que Jesus veio à terra simplesmente para desenvolver um relacionamento retributivo com o homem, onde ele concede seu favor em troca do que necessita? Tipo: afeto, louvor, obediência, carinho e tudo que já falei?

Relacionamento com Deus não se dá a partir daquilo que ele necessita Apolinário, porque ele não precisa de nada, ele encontra plena satisfação nele mesmo; isso é ser Deus. O relacionamento com Deus se estabelece em uma única verdade: a de que nós precisamos dele, dependemos dele, vivemos nele e sem ele a inexistência seria a única realidade a nossa espera. Sendo assim, meu relacionamento com Deus, de intimidade, amizade e fidelidade acontece pelo fato de que preciso dele, mas ele não precisa de mim, entretanto ele escolheu me amar assim mesmo; entendendo que não devo procurá-lo simplesmente por aquilo que ele faz por mim, mas especialmente por aquilo que ele já fez.

Apolinário, você e Jacó entenderam tudo errado, estão barganhando com Deus. Lembra das palavras dele? Se o Senhor fizer, isso, aquilo e aquilo outro, então o Senhor será meu Deus. Como se Deus precisasse dele! Será que a simples gratidão por ter sido encontrado por Deus, não seria o sentimento mais cabível naquela hora?

Acho que foi por isso que em seu segundo encontro com Deus ele ficou aleijado. Desculpe a ironia. O que interessa é que pela graça de Deus ele entendeu o que é ser transformado. De Jacó para Israel, de enganador para príncipe de Deus. Cuidado Apolinário, acho que é você quem precisa realmente ter um encontro com esse Deus. Quando isso acontecer, saiba de uma coisa: você não sairá de lá inteiro, mas com certeza sairá transformado.

De seu amigo Pastor Sérgio Abreu


[1] Gingrich. F. W. Léxico do Novo Testamento, p. 198.

[2] Dicionário Aurélio